Réquiem para Orfeu
II
Chegou cego de treva, e aqui desceu
com um cajado de luz, varrendo os mares.
Cantou as melodias esquecidas
pela orquestra do abismo indevassado,
bailou com os anjos, conversando, e abriu
alas dentro do escuro, para a entrada
dos deuses e da música regida
pelo estranho compasso dos trovões.
Vai modelar, com os dedos destes rios,
as dunas que as sereias grinaldaram
com peixes, búzios, pérolas e flores,
e conduzir os pássaros da aurora,
em busca de mistérios na floresta
cheia de sons, de cores e de estrelas.
XIV
Chegou tangendo as harpas invisíveis
que as róseas mãos da aurora dedilharam.
Cedo aprendeu os sons da melodia
que cada estrela de seu trono viu
nascer com a luz que inflama o firmamento.
Brindou a multidão cega de horrores
- com poesia, lírios e trovões,
na estrada dos planetas sacudidos
pelo furor do céu enraivecido.
Fez um jardim de música nas ondas,
com acessos para os anjos sem coroa.
E agora entrega ao mar o espólio e as lágrimas
do herói. - O velocino de ouro, e este elmo
sujo de pranto, escuridão e medo.
Santo Souza
Riachuelo - SE (1919)
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